Quando o desgaste articular aparece antes da hora, a prótese entra na conversa cedo. E é justamente aí que ela merece mais cuidado: em paciente jovem, a substituição articular resolve o presente e complica o futuro.

O problema da prótese instalada cedo

Próteses colocadas em pacientes jovens são submetidas a forças e impacto maiores do que aquelas de um paciente idoso com rotina de baixa carga. O resultado é um índice mais alto de desgaste e de falha ao longo do tempo, com risco concreto de uma futura cirurgia de revisão.

Revisão de prótese é um procedimento tecnicamente mais complexo que o primeiro. Ou seja: instalar a prótese cedo não apenas antecipa uma cirurgia — pode transformar uma cirurgia em duas, sendo a segunda mais difícil.

Vale registrar também que a prótese total de joelho bilateral, modalidade em que os dois joelhos são tratados no mesmo procedimento com uma internação e uma anestesia só, tem contraindicações claras: pacientes cardiopatas, com doenças pulmonares e acima de 80 anos.

O que existe antes da prótese

A cartilagem articular não é vascularizada. Danificada por trauma ou degeneração, ela raramente se recupera sozinha, e a lesão tende a evoluir para dor e limitação. Por isso as técnicas de preservação não são paliativos — são intervenções que mudam a trajetória da articulação. A escolha entre elas depende sobretudo do tamanho do defeito.

Condroplastia

Estimula a própria articulação a produzir tecido de reparo. Na técnica de microfratura, feita por artroscopia, são abertos múltiplos orifícios até atingir o osso subcondral, o que provoca uma resposta de cura no local. A alternativa é a abrasão, com desbridamento e perfuração. Atende sobretudo adultos jovens.

Mosaicoplastia

Transfere cilindros de cartilagem do próprio paciente. Indicada em lesões de 1 a 2 cm, resolve o caso em uma única operação, geralmente artroscópica, com recuperação bem mais curta. O limite é a quantidade de cartilagem disponível para doar — acima de 2 cm ela deixa de ser viável.

Implante autólogo de condrócitos

Procedimento em duas etapas. Primeiro, condrócitos saudáveis são retirados por artroscopia de uma área que não suporta peso. Essas células são cultivadas em laboratório por 4 a 6 semanas e, em uma segunda cirurgia, implantadas na lesão. É a opção quando se quer tecido do próprio paciente em área extensa, ao custo de duas intervenções separadas por semanas.

Aloenxerto osteocondral

Usa cartilagem de doador externo e é a via para defeitos maiores que 2 cm. Exige incisão aberta.

Quem pode fazer

O transplante de cartilagem se dirige a pessoas ativas, com áreas localizadas de artrite, entre 15 e 55 anos, e com os meniscos íntegros. Esse último critério não é detalhe: menisco comprometido altera a distribuição de carga na articulação e prejudica o resultado do enxerto.

É mais um argumento a favor da avaliação precoce — os critérios de elegibilidade se fecham conforme a lesão avança.

Quando a prótese passa a ser a escolha certa

Nada disso significa recusar a prótese. A substituição articular é a conduta adequada diante de artrose avançada, degeneração do menisco — sobretudo o medial — ou lesões múltiplas com perda de cartilagem e comprometimento ósseo, especialmente quando o quadro já não responde a repouso, anti-inflamatórios e reforço muscular.

Os componentes substituíveis são o femoral, o tibial e o patelar, e o implante pode ser de rolamento fixo, de rolamento móvel ou de pivô medial, conforme o caso. Após a artroplastia, espera-se recuperar cerca de 90° de flexão por volta do décimo dia, com aumento gradual de intensidade a partir da quarta semana.

A questão nunca foi prótese contra preservação. É ordem: esgotar o que preserva a articulação enquanto os critérios permitem, e reservar a substituição para o momento em que ela passa a ser a melhor opção disponível.